Chuvas de maio

Recorrentes há anos, tempestades deixam ‘marcas’ em Alagoas

Publicada em 29.06.2017

Reportagem: Graziela França e Lucas Thaynan

Fotografias: Lucas Thaynan


Após um longo período de seca extrema, a chuva voltou a cair com forte intensidade em Alagoas. Mas, ao invés de trazer alegria, o que se viu, no fim de maio, foram cidades debaixo d’água, centenas de casas alagadas, milhares de famílias desabrigadas, mortes e um rastro de destruição. Estes foram alguns dos problemas enfrentados por moradores das áreas atingidas pelas fortes chuvas que caíram no estado, no mês passado.

Maria Tereza, moradora da Grota do Santo Amaro, no bairro Gruta de Lourdes, estava em casa com a mãe, de 69 anos, e os dois filhos, um de três e outro de cinco anos, quando foi alertada por um vizinho que sua casa estava desabando. “Três horas da manhã aconteceu isso, aí um vizinho de lá chamou dizendo que a casa estava caindo. Na hora, eu pensava que era mentira, mas quando me levantei, eu vi e já chamei pela minha mãe”.

Ela conta que viveu momentos de desespero, que nunca havia imaginado passar antes. O sentimento é partilhado por muitos moradores de várias cidades alagoanas durante as chuvas que aconteceram no final do mês do maio e tiveram seu ápice a partir da noite do dia 26 daquele mês.

Maria Tereza e seus dois filhos ficaram alojados em uma escola municipal, na Ponta Grossa

As chuvas que caíram no estado naqueles dias deixaram bem mais do que perdas parciais. Sete pessoas morreram, sendo cinco da mesma família, além da última vítima que não foi encontrada. As buscas foram encerradas pelo Corpo de Bombeiros após onze dias de procura pelo último corpo. Em Maceió, as mortes foram registradas nas grotas de Santo Amaro, Pau D’arco e o bairro Chã da Jaqueira.

"Utilizamos dois cães, duas retroescavadeiras, mais de 50 bombeiros, encerramos as buscas hoje, porque já não tinha mais por onde procurar. Nós montamos um quebra-cabeça, chegamos à quinta vítima e, infelizmente, não chegamos à sexta [vítima]”, contou o tenente Ricardo Cruz no dia 6 de junho.

Ao todo, 27 cidades alagoanas registraram alto índice pluviométrico e grande número de desabrigados e desalojados. Sendo assim, o governo do Estado e Municípios decretaram estado de emergência ou calamidade pública nas cidades de Marechal Deodoro, Pilar, Atalaia, Jacuípe, União dos Palmares e Murici.

Confira no mapa interativo abaixo as cidades atingidas pela chuvas em Alagoas:

De acordo com dados divulgados pela Defesa Civil de Alagoas, o número de desabrigados chegou a 7.883 e de desalojados a 16.344, em todo o estado, totalizando 24.227 pessoas afetadas pelas chuvas. Só a cidade de Marechal Deodoro registrou mais de 5 mil desabrigados.

Moradora da Grota Santa Helena, em Chã da Jaqueira, Josivânia Constantino dos Santos, de 32 anos, contou que estava com as duas filhas e a irmã, quando a casa onde moravam começou a desabar, durante a madrugada do sábado, dia 27. “Uma árvore caiu e saiu deslizando na barreira, atingindo a minha casa. Aí ouvi um estrondo, abri o portão, e a gente correu, mas não deu tempo de escapar”, conta a mulher que teve o rosto atingido por escombros, mas conseguiu se salvar sem nenhuma grande sequela.

A filha mais nova de Josivânia, de apenas 7 anos, não teve a mesma sorte da mãe. A caçula da família teve o tornozelo fraturado e precisou ficar internada no Hospital Geral do Estado (HGE) aguardando uma cirurgia. Veja no vídeo o relato de Josivânia dos Santos:

A família contou ainda que no momento em que a residência foi atingida pela árvore, todos saíram da casa rapidamente, mas sem conseguir pegar objetos pessoais e documentos. “A gente saiu até descalço”, relembra Josivânia. O refúgio da família e de muitas outras que passaram pelo mesmo sofrimento na capital foi a Escola Municipal Hélio Lemos, localizada na Ponta Grossa, que serviu de abrigo para dezenas de pessoas.

Ariela Belo, diretora da Proteção Social Especial da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) e responsável pelos abrigos na capital, explicou que a escola Hélio Lemos serviu de abrigo emergencial. “A Defesa Civil foi anteriormente nessas localidades de risco, identificar essas pessoas. Depois, nossa equipe foi a essas regiões e disponibilizou assistentes sociais e psicólogos para essas famílias. Através de ônibus da prefeitura trouxemos essas pessoas até aqui para que, em local seguro, fizéssemos uma triagem de quem realmente precisaria ficar no abrigo”.

Ocorrências em Maceió

A reportagem da Agência Tatu juntou todos os dados de registros de mortes, vítimas, deslizamentos de barreiras e outras ocorrências decorrentes das chuvas no fim de maio e fez um mapeamento, separando por tido e local do acidente. As informações foram coletadas com o Corpo de Bombeiros e Defesa Civil.

Ao clicar nos pontos do mapa é possível visualizar outras informações. Confira abaixo:

Chuvas recorrentes

Apesar das fortes chuvas que atingiram a região Norte, Zona da Mata e a capital alagoana assustar muita gente, em Maceió as tempestades no fim do mês de maio já deveriam ser esperadas. Sim, deveriam. Pelo menos é o que revela os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) analisados pela reportagem da Agência Tatu.

Com a análise das informações pluviométricas se percebeu que, em seis dos últimos nove anos, o volume de chuvas registrado na última semana de maio, de cada ano, foi o dobro das demais semanas do mês, com uma média de 128 mm, em comparação com os 60 mm em média das demais semanas.

No gráfico é possível ver, semanalmente, como se deu a precipitação das chuvas nos meses de maio nos últimos nove anos.

Ruas se tornaram rios

Para ver de perto os efeitos das chuvas não foi preciso ir muito longe. Durante a elaboração da reportagem, a Agência Tatu conversou com diversas famílias e comerciantes atingidos aqui mesmo na capital alagoana, em bairros como Bebedouro, Vergel, Mutange e também outras localidades que ficaram com as ruas alagadas.

Em Bebedouro, localizado próxima a laguna Mundaú, as casas foram construídas sob uma estrutura mais elevada, justamente para lidar com este tipo de situação. Mesmo assim, a água das últimas chuvas subiu mais de um metro de altura, levando a população a buscar soluções, paliativas, para tentar enfrentar o problema.

É o caso de José Adriano da Silva, pescador, que disse que com a laguna muito cheia não é possível trabalhar e levar o sustento a sua família. Então, ele e outros amigos pescadores usaram seus barcos para transportar moradores do bairro que não conseguiriam ir aos seus destinos caminhando, já que o nível da água chegou a altura da cintura.

Enfrentando esses e outros riscos, José Adriano fala do medo de contrair doenças, como a leptospirose, doença que atingiu oito municípios de Alagoas e debilitou mais de 50 pessoas. “A gente tinha que buscar uma alternativa para dar de comer aos meninos, mesmo com o medo de pegar doenças. Minha pele já está prejudicada. Depois eu vou ‘pro’ posto tentar tomar alguma vacina pra não adoecer”, relatou o pescador.

Solidariedade

Em meio ao caos, muitas vezes, as pessoas se deparam com o que há de melhor no ser humano: a solidariedade e a caridade. Após o surgimento dos primeiros desabrigados, as campanhas para arrecadação de donativos começaram fortemente na capital e interior. Diversas instituições promoveram ações em prol dessas pessoas e também disponibilizaram espaços para receber donativos que seriam destinados às vítimas das chuvas.

Mesmo um mês depois das ocorrências mais graves, as campanhas seguem em igrejas, entidades públicas, privadas e filantrópicas, a exemplo da Cruz Vermelha de Alagoas que também participou dessa corrente de solidariedade, tanto na arrecadação de doações, como no apoio clínico às pessoas desabrigadas e colaboradores de abrigos.

“Como é um situação de calamidade pública, nós trazemos técnicos, enfermeiros, psicólogos e socorristas pra que possamos atender essas pessoas e suas necessidades. Agora estamos fazendo o apoio clínico, que consiste em fazer curativo, aferir pressão, entre outros. Então esse tipo de trabalho que nós fazemos, que se chama prevenção, nessas horas é fundamental e nós não podemos ficar  sem dar esse apoio”, pontuou Alex Alves, condutor socorrista.

O pastor Alberto Araújo, de uma igreja evangélica do Santo Amaro, falou da importância de colaborar com essas pessoas, que muitas vezes não têm a quem recorrer.

“Neste momento a gente mobilizou a igreja e a nossa comunidade está realmente envolvida. Juntamos e começamos a dar assistência àquelas pessoas que foram atingidas pelos deslizamentos, com roupas e alimentos. E, graças a Deus, outros órgãos estão ajudando, mas nós estamos fazendo nossa parcela de colaboração também. Temos um ponto de apoio aqui na igreja e já estamos distribuindo o que é arrecadado”, disse o pastor no domingo, dia 28, após as enchentes.

O pastor destacou ainda que nestes momentos as pessoas devem se unir, sem olhar para suas diferenças. “Nós somos humanos, somos irmãos, temos que nos ajudar se não nossa fé é vã”, finalizou ele.

A dona de casa Genilda Lima, contou que cerca de 35 famílias passaram o dia em uma escola próxima à Grota de Santo Amaro, que serviu de abrigo improvisado. “Eu moro aqui perto e conheço muitas pessoas que foram atingidas pelas chuvas. Uma situação triste, muito triste, todo mundo desesperado, com medo de que voltasse a acontecer. A maioria não tinha para onde ir, então eu e outras pessoas viemos logo cedo para fazer comida e ajudar”, relatou.

Medo constante

Na última semana as chuvas trouxeram novamente o sentimento de insegurança e medo para moradores de Marechal Deodoro e Pilar, mesmo após quase um mês após as enchentes. Nos dias 22 e 23 de junho, quinta e sexta-feira, o nível da laguna Manguaba voltou a subir deixando os habitantes das duas cidades apreensivos.

“Não parou de chover o dia inteiro. Estou muito preocupada. Os brejos que estavam quase secos, já estão cheios novamente”, comentou Estefany Cristhina, estudante e moradora de Marechal Deodoro, que teve sua casa alagada e objetos perdidos durante as chuvas do mês de maio.




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