Escavando...

Em tempos de crise, Alagoas vive momento crítico de (des)emprego em 2016

Por Lucas Thaynan

Foto: Annaline Araújo

O Brasil vive um momento delicado. Crise econômica, instabilidade política, cortes das despesas do governo e os reflexos da crise econômica mundial fazem agravar essa situação. Juntos, esses fatores fizeram o desemprego bater o nível de 11,3% no país, e em Alagoas o número é ainda mais alarmante. Os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) colocam o estado nas últimas posições do país em relação aos postos de trabalho, com uma taxa de 12,8%.

A partir desse panorama de desemprego, a reportagem da Agencia Tatu fez o levantamento da situação empregatícia em Alagoas neste ano e apresenta, em gráficos, os cargos que mais geraram demissões no estado e os que mais contrataram trabalhadores.

O levantamento mostra também outros dados relevantes, como informações sobre o saldo das contratações e desligamentos em 2016 e às profissões com os maiores salários médio. As informações foram levantadas em bases de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência Social e referem-se ao período de janeiro a junho de 2016.

Desligamentos

A partir da apuração foi possível identificar que os cargos de “Trabalhador da Cultura de Cana de Açúcar” (com 23.173 mil desligamentos), “Servente de Obras” (4.626 mil) e “Vendedor de Comercio Varejista” (4.098 mil) foram as três profissões que mais desligaram trabalhadores no estado, no primeiro semestre do ano.

Admissões

Já as três profissões que mais contrataram pessoas em Alagoas neste ano foram: “Operador de Telemarketing” (com 4.236 mil carteiras assinadas), “Servente de Obras” (3.603 mil contratações) e “Vendedor de Comercio Varejista” (2.943 mil contratados).

Contratações x desligamentos

Dos cinco cargos que mais empregou em 2016, a reportagem fez um comparativo entre o número de carteiras assinadas e o número de pessoas desligadas em cada uma das funções. Assim, foi possível observar que o cargo de “Operador de Telemarketing” gerou 4.236 mil empregos formais, mas desligou outros 2.521 mil trabalhadores, ficando com um saldo positivo de 1.715 mil cargos de trabalho.

Isso se dá principalmente pela instalação, nos últimos anos, de unidades de uma empresa multinacional de telemarketing na capital alagoana. Mas o índice de rotatividade de funcionários na empresa ainda é grade, fazendo com os trabalhadores, de maioria jovem, entrem na empresa e com poucos meses sejam desligados.

É o caso de Sirleide Silva, de 21 anos, que ingressou no mercado de trabalho na empresa de telemarketing, mas que a exaustão e as “cobranças abusivas” de metas presentes na rotina de trabalho lhes fizeram ter de pedir demissão, após pouco mais de um ano dentro da empresa.

“Eu sei que precisava do emprego para pagar minhas contas e minha faculdade, mas o estresse era grande e estava me gerando alguns problemas de saúde. Assim, decidi sair porque não aquentava mais”, conta a jovem que se junta agora a outros milhares de alagoanos que se encontram na mesma situação de desemprego.

Por outro lado, a profissão de “Servente de Obras” desligou mais trabalhadores do que contratou no primeiro semestre deste ano. Foram 4.626 mil desligamentos contra 3.603 mil contratados, e saldo negativo de -1.023 mil cargos.

Paulo Malgueiro, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Alagoas (Ademi), explica os fatores que fizeram demitir trabalhadores da área da construção civil no estado. “O setor da construção vem sofrendo muito com a crise econômica, mas a redução do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ refletiu muito nos empregos e fez reduzir os postos de trabalho em Alagoas”, aponta Malgueiro.

A profissão de “Vendedor de Comercio Varejista” ficou na mesma situação, onde 4.098 mil foram desligados e 2.943 contratados nos primeiros seis meses do ano, com saldo de -1155 mil cargos somente no primeiro semestre do ano.

“A queda nas vendas do setor de comércio é o que justifica essa situação da redução do quadro de vendedores. Esta é uma forma de reduzir os custos das empresas, mas a expectativa é que na segunda quinzena deste mês de outubro a situação venha a se reverter”, explica Wilton Malta, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Alagoas (Fecomércio-AL).

Números totais de 2016

Quanto aos dados totais da situação empregatícia em Alagoas, neste ano mostra-se uma tendência similar aos números de 2015. De janeiro a junho de 2016 foram contratadas 42.714 mil pessoas e, outras 73.434 mil ficaram desempregadas, gerando um saldo negativo de -30.720 mil cargos de trabalho somente no primeiro semestre do ano.

Em 2015, haviam sido contratados 54.667 mil trabalhadores e 84.896 mil desligadas, isso só nos seis primeiros meses do ano. O saldo também ficou negativo em -30.229 mil postos de trabalho.

Profissões com maiores salários

A reportagem da Agência Tatu também teve acesso as profissões com os maiores salários mensais médios no primeiro semestre do ano em Alagoas. O levantamento apontou que o cargo de “Supervisor de Manutenção” ficou em primeiro no ranking, com salário mensal médio de R$ 12.925,80 mil, em seguida o de “Diretor Financeiro”, com R$ 12.114,00 mil de renda média, e em terceiro o cargo de “Engenheiro Eletricista”, com R$ R$12.002,50.

Análise de especialista

Procurada para explicar os dados informados nesta reportagem, a economista Luciana Caetano, e professora do curso de Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), esclarece que o mercado de trabalho em Alagoas é marcado, principalmente, por uma sazonalidade por influências de dois grandes setores: o sucroalcooleiro e o do comércio.

“O que acontece com esses dois setores, principalmente o ligado a cana de açúcar, é que há um grande número de contratações a partir do mês de agosto de cada ano e esse pessoal é mantido até meados de março do ano seguinte, assim se tem um índice de demissão muito alto, em virtude dos contratos duraram cerca de seis meses”, detalha.

As contratações temporárias de fim de ano nos setores de comércio e serviços também ajudam a explicar os números. “Como muitas das contratações desses setores acontecem no segundo semestre, há um desequilíbrio entre os semestres do ano. Em uma média nacional, Alagoas costuma ficar à frente de outros estados em termos de contratações no segundo semestre do ano, mas no primeiro, a questão se inverte”, explica Luciana.

Em relação a queda em 10 mil cargos de trabalho no primeiro semestre 2016, ante o de 2015, a professora explana que nos anos de 2011 e 2012 houve um crescimento muito grande nas admissões, mas que desde 2013 é possível observar um recuo das contratações. “O fechamento de duas unidades produtivas do setor sucroalcooleiro também influenciou nessa baixa, resultando em três anos um saldo negativo de cerca de 20 mil pessoas neste setor. Gerando assim, um forte impacto sobre o estoque de emprego em Alagoas”, aponta.

Em relação ao grande índice de rotatividade no setor de telemarketing em Alagoas, Luciana informa que ainda não tem um estudo sobre este ramo no cenário local, mas que o telemarketing é uns dos setores que mais precariza a relação de trabalho.

“Ninguém fica nesse ramo por muito tempo por opção, só mesmo quando não há outra possibilidade de emprego. Acredito que inclusive esses números de demissões que se deram nesse setor sejam muito mais por iniciativa do contratado do que do contratante, em virtude das condições de trabalho que são muito ruins”, enfatiza.

De acordo com a professora, fazer uma aposta para 2017, dada a incerteza que se configura no cenário político e o impacto sobre a economia, é muito difícil. “Não dá ainda para se ter uma expectativa clara para o ano que vem em relação a economia brasileira, e principalmente a alagoana. Provavelmente teremos no início do ano que vem um volume significativo de greves em vários setores da economia, o que obviamente vai alterar o estado de expectativa dos investidores, podendo também ter influência sobre a dinâmica da economia, inclusive nas contratações.”

Luciana explica ainda que na melhor das hipóteses Alagoas manterá o mesmo nível de atividade de economia que temos hoje, ou seja, taxa e crescimento zero. E que não há nenhuma aposta para que no próximo ano o estado tenha uma taxa de crescimento produtiva.